ARABESQUE

ARABESQUE
Em passos de arabesque escrevo

27.8.11




sem noção



me olha assim disfarçado
me canta desafinado
e não olha pra mais ninguém

pula em cima de mim
quando me vê distraída.
ai que cara sem noção!

e eu subo até sobre a mesa
se me pega de surpresa
bem na hora do jantar

queria um sapo encantado
daquele que vira um príncipe
o meu só me faz gritar


@Jade Dantas

24.8.11




ilógica


ávida pela vida
amedronto
a segurança das grades

quebro os invólucros
os estereótipos
as simetrias

porém o tempo
ilógico e incoerente
é o meu limite


©Jade Dantas



amanhã


o poema que desejo penetrará nos olhos e na alma
de quem o lê. espiral, átomo
galáxia nos poros, definitivo

o poema que desejo é substancial como o pão
é metaplasma
sem início e sem final

o poema que desejo é sensual e ardente
horizontal
é fingidor e passará por muitas mãos

o poema que desejo tem olhos de criança
é ternura de manhã clara, nuvens brancas
é ressonância lá onde você se esconde

onde você pensa
que é pedra
é amanhã


@Jade Dantas


23.8.11




precipício


tudo que está acumulado
o amor guardado doendo não volátil
era o encontro da sede e sua água
sem a percepção do precipício

@Jade Dantas




aqui


chuva e sol, estás aqui
presença e raiz, estás aqui

aquecendo o frio onde congelo
estás aqui

teus braços me ajudam a caminhar
e me deixas livre para voar

me sabes pássaro
povoado de fantasmas

e palavras
mas estás aqui


@Jade Dantas


Imagem - Jack Vettrianno



20.8.11




resgate


tento me resgatar do amor
imóvel e insone
sobrevivente do ontem

mas o fascínio das palavras
transformam minhas tentativas

em inútil
idade

@Jade Dantas





sombras


dispersa no vazio dos espaços
alheios à urgência e ao cansaço

a minha voz distante dos teus braços
tem sombras de brilho e rituais

e o não dito é nebuloso e intocável
perdido no abismo dos teus passos


@Jade Dantas

17.8.11




na praia


sonhei você ao meu lado
aqui em Boa Viagem

o cabelo solto ao vento
nós dois brincando ao relento

com o gosto de você
sonhei um beijo na praia


@Jade Dantas

13.8.11




poema ensolarado


ébria de amanhecer
vestida apenas de sol
crio roteiros

onde o impossível ressurge pelas frestas
na ensolarada manhã de inverno


@Jade Dantas

12.8.11





mesa de bar


mãos dadas, olhos nos olhos
numa mesa de bar à meia-luz

levito, embriagada de ontem
entre miragens e espanto
nas noites de insônia


@Jade Dantas

7.8.11




desequilíbrio


mas quando iluminas as janelas
da minha vida e me abraças

teu calor na minha pele
deslizando em beijos famintos

com olhos de animal sedento
o tempo se torna inconsistente

vago, perco o equilíbrio
sou grito, eco e ardências


@ Jade Dantas



amigo sol



bom dia amigo sol
esta manhã azul do meu Recife
tem a eternidade das coisas felizes

vês os pássaros no ar? a vida é uma aventura
como trabalhar numa manhã assim?
a vontade é sair por aí sem amarras

perdoa por favor a menina que ainda sou
é que numa manhã tão linda como esta
o meu desejo de brincar não se acabou


©Jade Dantas

Em frente ao Ed. Acaiaca - Praia de Boa Viagem - Recife - PE



tempo esgotado


se levas uma vida sem sentido
considerando o teu tempo esgotado
enquanto o mundo pulsa à tua volta

se deixaste o teu sonho esquecido
porque gastaste todas as palavras
em uma viagem sem sentido

ancorada no agora, sem angústia
pelo amor que deixaste se esvair
como areia do tempo em tuas mãos

se não ouves mais a voz da vida, virando estátua
com o sal ressecado das tuas lágrimas
então prossegue sem olhar para trás

porém se hoje este chamado
ainda te consome e não o segues
por medo, é a vida que te envolve

vai! que a vida é hoje, agora
o tempo não perdoa
e amanhã pode ser tarde demais

@ Jade Dantas

1.8.11




quarto escuro


são cristais, vezes perdidos
no quarto escuro das hesitações
rio do tempo que se afasta

os instantes que não se repetirão
as pessoas que nunca mais veremos
e jamais se apagarão

@Jade Dantas



preconceito


ele tem mãe e pai também
tem sobrenome, simples mas tem

por que o chamam de Zé Ninguém?


@ Jade Dantas

30.7.11




essencial


meus poemas
são minha ponte essencial

entre o vazio e o vôo
entre o espaço circular e a vastidão
entre o tempo esgotado e a eternidade


©Jade Dantas

21.7.11





era uma vez


era a viagem e o destino desde o início
a intensidade estava à nossa espera
fomos um passo além do apreensível

nas mil e uma noites que me deste
o que valia era o encontro, era o instante
da imersão voluntária no impossível

e o milagre se fez carne e se fez verbo
restou o silêncio, o eco, o grito e a poesia
quando se estilhaçou o que era eterno


@Jade Dantas

15.7.11



além dos limites


para experimentar o amor
tens de falar as palavras
onde ardem as ousadias
sabores e perdições

e depois

esquecer de todas elas
quando se tornarem demais


@Jade Dantas

Poema do meu livro - Pelo Avesso

7.7.11




noturnos


a música pousou cedo
em minhas mãos
revelando seu mundo de magia

compôs tons de bemóis e sustenidos
deixou-me rastros de sinfonia
pássaros feitos de espaço e sons

intemporais adormecidos
nas sonatas de acordes solitários
e noturnos descompassados

ainda brilha em tons maiores
e oblíqua me absorve
na busca incessante da poesia


@Jade Dantas

Foto - Jade aos 6 anos



de fuga


para esquecer teus braços
guardei minhas mágoas
na gaveta do quarto

reneguei meus desejos
teus olhos teus beijos

para esquecer teu encanto
busquei novas palavras

destravei os meus passos debrucei à janela
esperei novos dias

e cobri-me a mim mesma
com minha poesia


©Jade Dantas

3.7.11




vazio


no meio de mim
há um silêncio de pedra
gritando por vida

cescendo, cortando
denso e fundo

além da dor
não há melodia
ou poesia ancorada

apenas o vazio e o nada


@Jade Dantas


Poema vencedor do Concurso de Poemas da Prefeitura de Recife em 2010



atalhos


montanhas altas demais
pra meu desejo de bosques

abismos muito abstratos
pros meus anseios de ave

ousadias resolvidas
entre a noite e o desejo

o calor da lua cheia
no peito acordando o sol

e o silêncio toldando tudo
no desencontro sem atalhos


@Jade Dantas



águas da solidão


é a palavra acariciando abismos
dos horizontes velados no olhar
e o poema iludindo o amanhã

as alvoradas todas já vividas
o véu de sombras perdido no rosto
a melodia esquecida no avesso

o corpo, o barco, o medo
viajando águas da solidão
caminhante buscando descanso

na poesia que dança em sua mão
sãs as vidas que jamais viverá
com saudade, sem amor nem perdão

@Jade Dantas


Imagem de Christian Coigny

2.7.11




magia


antes que o dia nos desgaste
que a ausência da magia nos limite

galopa-me, sem estribos nem arreios
sou vela solta sou égua livre

antecipando a maresia e o sal
reinventando a vida
antes que se perca em rituais

@Jade Dantas

25.6.11




infinito


velados atrás dos gestos
se ocultam anseios de ondas

cúmplices do instante que passa
curvas do vôo, pássaros

reflexos do infinito
muito além das palavras

quando a luz as deixa mais suaves
e o silêncio lhes basta


© Jade Dantas



paixão

descobrir a audácia
além das águas rasas

além do fogo brando
da incompletude covarde

viver a vida com paixão
ou nada

©JadeDantas

21.6.11




castelo de areia


o castelo que ergueste
com a areia da tua vida

a errância dos ventos da vida o mutila
efêmera medida do tempo que se vai

a chuva que o molha são múltiplas correntes
feitas das mágoas acumuladas

conta como era belo no início
conta dos sonhos esquecidos

lembra do quanto ergueste com amor
e do quanto com mentiras

fala das fendas que se criaram
dos sonhos mortos nas noites desmaiadas

do que gostarias de refazer
onde deixaste teu nome e tua marca

porque o tempo nos trai
somos feitos da areia que a vida nos deixou

mas a noite é fria, o relógio do vento
bate mais forte a cada dia

afasta a chuva que guardaste
e aproveita a areia que ficou


@ Jade Dantas

20.6.11




roteiros

traz os teus gestos de seda
aos meus olhos de remanso

escala os meus caminhos
percorre os meus roteiros

vira o tempo pelo avesso
dá-me teu corpo de abismos

volta a acender a faísca
que inicia o incêndio

@Jade Dantas

15.6.11




sol de inverno

porque esta chuva é feita de distância
porque este frio é na alma
e é no corpo onde dorme este calor

porque de lembranças é feito este sol
pálido e sem sentido sol de inverno
deslizando para o silêncio

sem fome de poesia
sem a vida que o quis reter
fechado, sem palavras, sem nada

©Jade Dantas


Imagem de Donald Verger

12.6.11




outras margens

contigo estão meus abismos
meus labirintos

que de nuvens nada sei
sei dos teus passos, teus embaraços eu sei

na outra margem da vida
na outra margem de mim

provei tua boca, teu gosto, teu gozo
e te recriei

@Jade Dantas

8.6.11



"Um sonho começa a ser realidade quando sonhamos juntos, olhamos além das limitações e ousamos caminhar por caminhos novos, às vezes pedregosos, às vezes escorregadios, mas sempre desafiantes. Não obstante, nenhuma dificuldade, nenhum obstáculo é mais angustiante do que se caminhar solitário, sem mãos que se tocam, sem ombros que se apoiam, sem olhos que se olham"
Abraham Lincoln



desejos de um dia de sol


ao vento dos descaminhos
a cabeça envolta em nuvens

cabelos leves ao vento
o mar cantando ao sol

embriagada de vida
caminhando ao teu lado

onde nunca caminhei
o amor não mais guardado

com asas que me explicam
nos gestos que nunca ousei

@Jade Dantas

5.6.11




deserto

entre pedras e areias do tempo
desgasta-se a sede
da tua presença

deserto a me consumir
entre o que nunca seria
e a realidade da ausência

©Jade Dantas

23.5.11




aprendiz

esqueço as armaduras
a noite absoluta
o sal

e novamente aprendiz de azul
rendo-me à doçura
e à tepidez macia do olhar que é teu


© Jade Dantas

10.5.11



além do azul



nas zonas de sombra
o que não foi efêmero

além do azul
flutua nas minhas mãos

curva do infinito a me escorrer na pele

buscando-te além do poema
naquilo que não foi dito

errantes miragens
que jamais descobriremos.


© Jade Dantas

2.5.11




aragem

a poesia canta em minhas mãos
na inevitável dança que a palavra completa

sou dela, sou poeta
escrevo movida por sua voz

de essência, sina, miragem
brotando-me das mãos

sua canção tem asas de seda e leveza de borboleta
pousa suavemente nas palavras

incitando-as a voar
na intensidade das coisas seduzidas


© Jade Dantas