ARABESQUE

ARABESQUE
Em passos de arabesque escrevo

24.4.11



esfinge

não me procures
na curva dos meus ritmos
onde o tempo me perdeu de mim

quem sou é um contorno no infinito
um vulto que sumiu no corredor
mascarando a outra que ainda sou

©Jade Dantas



sítio do meu avô


sertão. noite de inverno
luz de lamparina. interior
sítio do meu avô. cai uma chuva fina
mulherada reunida na cozinha

tomo café e escuto a observação
feita pra mim, moça da cidade
- não venha aqui de madrugada
- por quê? - melhor num vir

(sorrisos misteriosos) - sei
(querem me pegar!)
- fantasmas? (rio) - como sabe?
agora rio alto sem pensar

elas calam. suspiram
- desculpem-me - não quero chatear
- tudo bem, imagina!
porém, na madrugada, a fome bate

no meio do creme de abacate
olho de lado e fico estática:
bem junto a mim, um arlequim
enorme, olhar zombeteiro

na pia um vulto estranho
brota do ralo. tremedeira
fujo, vou me deitar. nossa! sítio, interior
nunca mais! sou da cidade!


©Jade Dantas

17.4.11




tempo de ser


o amor tem seu tempo de ser
e minhas mãos são tímidas

o amor quer ouvir a vida
deitar no chão deslumbrado de nuvens

e minhas mãos são de poesia
tecendo a insensatez das palavras

mas em algum lugar esqueci as asas
e me perdi de mim


©Jade Dantas

9.4.11




coragem


e por falar em mistério
lembro um espelho vazio, incolor
olhar emparedado aguardando os dias

e por falar em palavras
o silêncio é uma arma
e a poesia é vôo em vida dupla de metáforas

despertando em si mesmo a imagem do espelho
sem medo, sem culpas, alado


©Jade Dantas